O dia em que o amor nasceu Part.1

A gente temia quando ele vinha. A capa preta fazia qualquer um perder o fôlego, a ponto de cair ao chão desacordado. Ele era tão seco por dentro, que ninguém poderia preencher aquela sequidão. Seus olhos fundos ao ver luz, e uma taça pendurada na cintura… tão unitário, que vida, nem fazia questão de ter ao redor. Nós que éramos fartos, não sabíamos como recebe-lo. As vezes aparecia do nada, e levava mais uma vida sem dar explicação. E há quem diz, que tudo foi por uma gota de água. Temos que saber viver, dar uma gota para toda a jarra receber. Ele quando moço, nem ligava com essa história, apenas andava sozinho, gritando para todos: “Dá minha AGUÁ ninguém bebe” … Até subia os fios de cabelo nas costas, me embruscava de medo quando dizia. A única coisa que a moça havia pedido, era uma gota de água. Ninguém sabe de onde vinha, mas todos davam com alegria. Exceto. Tão ruim que, sentiamos dor nas pernas ao correr dele. Aquela jarra santa, que nem se viesse algum ser de outro planeta, oferecendo algo em troca, ele negava. Filho de João Aparecido e Maria das Dores, João D’água rei daquele grande chão. Fazia até pena vendo os bois morrendo pedindo perdão. Mas tudo mudou, tudo havia de mudar. E foi quando João D’água havia visto a moça mais bela que existiu naquele pedaço de chão. Seus olhos que eram fundos e amargos, haviam acordado, pela primeira vez, vi o rosto do cabra. Tirou o chapéu e cumprimentou. Moça, vindo de longe, cansada, disse apenas uma frase “Poderia me oferecer um pouco de água moço”. -Eu já imaginei a cena. Mas não! Ele mudou de expressão, e encantado pegou sua taça da cintura e colocou um pouco de água para a moça. Eu nunca imaginaria ver aquela cena. Achei que iria ver João D’água morrer, sem oferecer uma gota de água que seja. A moça termina, e diz que tem de ir embora. João sem palavras, apenas queria saber mais sobre a moça, que por sinal parecia muito com João. O jeito de vestir, a expressão do rosto. E aqueles olhos, com as pálpebras cansadas. A água é tão sagrada que para limparmos o nosso corpo, usávamos a mesma água durante um mês, ou até mais. Quem tinha água limpa era rei. E o João e sua família, sempre dominaram aquelas terras. Todos com o coração de pedra. Trocar água era realmente algo que poderia acontecer apenas com familiares. Água limpa, mas de onde vinha que era suja. Aquela família miserável, todo o povo morria de sede, a família de João D’água nunca ajudou. E foi assim por vinte e sete anos. Nós que não tínhamos quase nada, andávamos 26 km para pegar 7 jarras de água. E ainda não era água limpa. João nunca olhou nos olhos de uma pessoa, porém quando ele olhou para Rita, – A moça mais linda que existiu naquele pedaço de chão. Sua vida mudou. O amor acendeu, e o sentimento pediu para entrar naquela casa vermelha que agora pulsa, e pede por paz. Quem sabe o amor é a verdadeira vela de um ser. O motor, o cabresto. Ou até mesmo a verdadeira consciência. Ele a encontrou e resolveu deixar tradições… – James Oliveira